Principal nome da arquitetura no Brasil, Oscar Niemeyer morreu ontem ao lado da família, depois de mais de um mês internado

Niemeyer-morreuOscar Niemeyer morreu ontem, aos 104 aos de idade

Oscar Niemeyer, principal nome da arquitetura no Brasil, morreu pouco antes das 22h de ontem, 5, aos 104 anos, no Rio. Ele estava ao lado da mulher, Vera Lúcia, 67, de sobrinhos e de netos no momento da morte. Cerca de dez pessoas o acompanhavam em seu quarto.

O corpo do arquiteto será velado no Palácio do Planalto, em Brasília. A presidente Dilma Rousseff ofereceu o palácio, o que foi aceito pela família.

O corpo será levado na manhã desta quinta-feira, 6, para Brasília (será velado no Palácio do Planalto) e retorna no fim do dia ao Rio, onde acontecerá uma cerimônia restrita a família e amigos no Palácio da Cidade, em Botafogo, sede da Prefeitura do Rio. Na manhã desta sexta-feira,7, o espaço deverá ser aberto ao público. O enterro ocorre na tarde, no cemitério São João Batista, também em Botafogo.

Abaixo, um texto primoroso sobre vida e obra de Oscar Niemeyer. Vale a pena ler.

Maior artista do país, Niemeyer fez a arquitetura brasileira ser pop

RAUL JUSTE LORES
DE NOVA YORK

Oscar Niemeyer foi o maior artista brasileiro. Em um país onde até as elites moram em castelinhos “neocoloniais, pudins, marmeladas e xaropes, com sua ignorância beata e beócia”, como Mário de Andrade já dizia nos anos 30, fica difícil medir a importância revolucionária desse arquiteto. Ele conseguiu fazer arquitetura de vanguarda mundial nos anos 40 e 50, quando o Brasil era um país agrícola e rural, ainda mais periférico do que hoje.

Mas façamos um teste. Qual o prédio mais impressionante e simbólico de São Paulo? O Copan. Que obra pública de São Paulo tem a maior força arquitetônica? Fica difícil escolher, mas certamente seria algo entre a marquise do Ibirapuera, a Oca ou a impressionante sede da Bienal.

O mesmo se aplica em Belo Horizonte, com a Pampulha ou o edifício Niemeyer, na praça da Liberdade, com o museu que projetou em Curitiba (cidade comandada por arquitetos por tantos anos, mas com uma arquitetura de segunda) ou com o estratégico museu em Niterói.

Mesmo no Rio, onde construiu pouco, o Ministério da Educação – Palácio Capanema e a Casa das Canoas são praticamente imbatíveis. Que não sejam construções tão conhecidas pelos não iniciados só reforça nossa ignorância arquitetônica.

Sem falar de Brasília. Do Itamaraty ao Alvorada, passando pelo Supremo, pelo Planalto ou pela rampa do Congresso (onde qualquer brasileiro fica sem respiração ao contemplar aquele céu e aquela vista), Niemeyer demonstrou um vasto repetório de formas e surpresas que pouquíssimos mestres podem exibir.

Ao lado de Tom Jobim, é nosso artista mais internacional. Nunca saberemos se as rampas do Guggenheim de Nova York foram inspiradas nas espertas rampas da Bienal de São Paulo ou se as colunas do Lincoln Center foram emprestadas de seus prédios em Brasília. O que importa é que Niemeyer estava estendendo o repertório modernista ao mesmo tempo que os mestres da área nos países desenvolvidos. Nunca atrás. Não era derivativo ou copiativo como ainda acontece em tantos outros campos no Brasil. Le Corbusier, a escola Bauhaus e os soviéticos podem ter sido os pioneiros, mas Niemeyer alcançou a pole position rapidamente.

Soube se cercar dos melhores por muito tempo –Burle Marx é um grande exemplo, Athos Bulcão, entre outros– e fez nossa arquitetura ser pop. O urbanismo de Brasília pode ter envelhecido mal ou simplesmente fracassado com sua divisão de bairros por funções ou seu privilégio aos carros, deixando o pedestre escanteado, mas a coleção de prédios ali erguida mata de inveja qualquer capital mais rica –Washington, por exemplo, com seus predinhos nostálgicos da Grécia antiga.

Niemeyer foi bastante atacado nas últimas décadas por uma intelligentsia com pouquíssima milhagem arquitetônica (é como se os fãs de Bruno e Marrone ficassem achando defeito em Bach), por razões que sempre lhe escaparam.

Seus prédios envelhecem mal ou foram mal construídos? Desde quando arquiteto é empreiteiro? Que obra pública no Brasil é feita com os melhores materiais, com nossas leis de licitação e nossos jeitinhos? O japonês Tadao Ando, trabalhando com o mesmo concreto aparente, tem sorte de não ver uma única rachadura em suas obras.

O Palácio da Alvorada é “ruim para morar”? Mas quem disse que a primeira função de um palácio é ser casa? Antes de mais nada, é ícone de um país, tem dimensões que não são da casa da gente — duvido que o Palácio do Eliseu, em Paris, a Casa Branca ou a Casa Rosada não tenham que ter passado por mil reformas para incluir modernidades tecnológicas que não existiam quando foram construídas.

“Niemeyer não deixou espaço para gerações de arquitetos mais jovens.” Não é fácil exigir de alguém que “recuse trabalho”. Prefiro culpar os políticos que não ousam em tentar chamar arquitetos mais jovens para buscar algo novo, o que Juscelino Kubitschek fez em 1940, ao convidar o jovem Niemeyer, então com 32 anos, para fazer a Pampulha. Isso era ser visionário. Aécio Neves, ao fazer o mesmo seis décadas depois, para construir a Cidade Administrativa do governo mineiro, foi apenas atrás do já consagrado. Longe de ser um JK.

Antes que me acusem de canonizar o arquiteto, algo a que o ateu Niemeyer teria horror, ele também tinha seus muitos defeitos. A paixão extemporânea por Stalin, uma certa desatenção aos detalhes, mas principalmente sua negativa de discutir arquitetura. Ao ficar insistindo que é melhor falar de política que arquitetura, desaproveitou microfones e holofotes para conquistar espaço para uma arte tão menosprezada no Brasil.

Ah, e o Memorial da América Latina mostra que até os gênios têm seus “momentos anos 80”. O conjunto é um lembrete de que todo mundo sofreu nos tempos de ombreiras, roupas fluorescentes e tecladinhos musicais. E que, na arquitetura, o cliente tem um papel enorme para dizer a finalidade de uma obra e o que se espera dela, algo que ainda não se descobriu em relação ao Memorial. Não foi só o arquiteto que errou com o vidro fumê do Parlatino. Para que serve o Parlatino?

Nos últimos anos, o veterano permitiu a construção indiscriminada com sua assinatura, quando sua saúde já impedia um acompanhamento maior do que era feito. Daquela biblioteca em Brasília ao centro cultural na Espanha, há várias obras recentes que mereciam ter ficado na gaveta. Mas como impedir alguém de querer trabalhar até o último momento?Niemeyer1Entrevistei Niemeyer em março do ano passado. A entrevista pode ser lida aqui. Aos 103 anos, muito falante, com uma memória privilegiada e cheio de projetos, só me fez pensar que a curiosidade é um dos nossos maiores dons. Nosso marxista erótico era, antes de tudo, um grande curioso, algo fundamental para um país ainda em construção.

Fonte: Folha Online – 05/12/2012

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