A produção de sal marinho é uma atividade histórica e estratégica para o Rio Grande do Norte, estado que responde por cerca de 95% da produção brasileira. É também um setor que enfrenta o desafio de conciliar produtividade, modernização e preservação ambiental. É nesse cenário que a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) tem um papel importante, por meio de pesquisas voltadas à compreensão da atividade salineira e à busca de alternativas mais eficientes e sustentáveis.
Professor e pesquisador da Ufersa, Rogério Taygra Vasconcelos Fernandes atua há mais de uma década junto ao setor salineiro. Sua trajetória acadêmica multidisciplinar, com formação em Engenharia de Pesca e Engenharia Civil, além de Mestrado e Doutorado em Ciência Animal, na linha de Ecologia e Conservação do Semiárido, levou-o a concentrar pesquisas na interface entre atividade salineira, meio ambiente e desenvolvimento regional.
Para o pesquisador, a responsabilidade da universidade vai além da produção de conhecimento acadêmico. Em uma região onde as salinas possuem grande importância econômica e social, a pesquisa precisa estar conectada aos problemas concretos enfrentados pelo setor. “Precisamos desenvolver pesquisas aplicadas, conectadas aos problemas reais do setor e capazes de contribuir para torná-lo cada vez mais eficiente, inovador e sustentável”, afirma o professor.
Rogério Taygra considera que o setor salineiro vive um período de desafios, mas também de oportunidades. A atividade vem passando por processos de modernização, com maior mecanização, automação e controle das etapas produtivas. Ao mesmo tempo, permanecem questões relacionadas à competitividade, à tecnologia e, principalmente, aos impactos ambientais.

Rogério Tyagra, professor da Ufersa (Foto: Cedida)
É justamente nesse espaço que o pesquisador identifica uma importante contribuição da Ufersa. Segundo ele, as características naturais do Rio Grande do Norte exigem soluções desenvolvidas a partir da realidade local. O estado possui clima, ventos, áreas planas e condições favoráveis à evaporação solar, características que ajudam a explicar sua importância na produção nacional. Por isso, Rogério defende que o conhecimento não deve ser simplesmente importado de outras regiões. É necessário estudar as próprias salinas, seus estuários, o clima e as condições específicas da produção potiguar.
“A universidade não deve estudar o setor de forma distante. Precisamos conhecer a atividade, dialogar com produtores e trabalhadores, entender os processos e transformar esse conhecimento em melhorias”, afirma. A atuação do pesquisador envolve o manejo ecológico das salinas, o estudo da biodiversidade desses ambientes, a mitigação de impactos ambientais, a conservação e recuperação de manguezais e estuários e o desenvolvimento de tecnologias para modernizar a atividade.
A proposta é compreender as salinas não apenas como espaços produtivos, mas também como ambientes que possuem características ecológicas próprias. São áreas manejadas pelo homem que podem abrigar biodiversidade adaptada às condições de elevada salinidade e que também são utilizadas por aves.
Nesse sentido, a sustentabilidade, para Rogério Taygra, não deve ser entendida como um obstáculo à produção. Ela precisa fazer parte do planejamento da atividade. “O futuro da indústria salineira precisa ser mais eficiente e mais sustentável. Precisamos produzir melhor, utilizar os recursos de forma mais inteligente, reduzir impactos e ampliar nossa capacidade de inovação”, reforça.
Água-mãe: de possível rejeito a recurso
Um dos pontos ambientais que recebem atenção do pesquisador é o destino da chamada água-mãe, solução concentrada que permanece após a retirada do cloreto de sódio durante o processo de produção. Rogério ressalta que esse material não deve ser visto simplesmente como um rejeito sem utilidade. A água-mãe contém diferentes sais e elementos minerais que permanecem dissolvidos à medida que ocorre a concentração da salmoura.
O descarte inadequado de uma solução com elevada salinidade pode provocar alterações ambientais, principalmente quando alcança ecossistemas que não estão adaptados a essas condições. Por isso, entre as alternativas estão o controle e o monitoramento dos fluxos de água e salmoura e a investigação sobre o aproveitamento dos componentes presentes nessas soluções.
A própria sequência de concentração pode favorecer a precipitação de outros compostos, incluindo sais de cálcio, sulfatos, potássio e magnésio. Essa característica abre possibilidades para pesquisas voltadas à recuperação de substâncias e ao aproveitamento de coprodutos.

“É justamente aí que a pesquisa aplicada ganha importância: estudar as características desse material e desenvolver alternativas que sejam tecnicamente viáveis, economicamente interessantes e ambientalmente seguras”, explica.
Uma das possibilidades mencionadas pelo pesquisador envolve estudos do professor José Francismar de Medeiros sobre o aproveitamento da água-mãe na agricultura, especialmente como fonte de nutrientes para a produção agrícola. A perspectiva aproxima duas atividades relevantes para o Rio Grande do Norte: a produção de sal e a fruticultura irrigada.
A utilização, entretanto, exige estudos e cuidados técnicos. É necessário avaliar a composição do material, definir doses e formas de aplicação e verificar possíveis efeitos sobre solo, água e plantas. Para Rogério, esse tipo de iniciativa representa uma mudança de lógica: em vez de considerar a água-mãe apenas como um material que precisa ser descartado ou gerenciado ao final da produção, é possível investigar maneiras de transformá-la em recurso.
Sustentabilidade

A conciliação entre produção e conservação ambiental é considerada pelo pesquisador não apenas possível, mas necessária. Para isso, é preciso conhecer profundamente cada sistema produtivo, identificar impactos, evitar aqueles que podem ser evitados, reduzir os que não podem ser completamente eliminados e recuperar áreas quando necessário.
Maquinização é uma realidade nas salinas do RN (Foto: Rogério Taygra)
Entre os principais pontos de atenção estão alterações na dinâmica hídrica e na circulação da água, mudanças no solo, transformação de habitats e possíveis alterações de salinidade em ambientes sensíveis. Os manguezais e estuários merecem atenção especial, devido à importância ambiental desses ecossistemas. Mas Rogério também alerta para a necessidade de evitar generalizações: os impactos variam de acordo com a localização, escala, implantação e forma de manejo de cada salina.
Por isso, planejamento ambiental, monitoramento, inovação tecnológica e manejo ecológico precisam caminhar juntos com o diálogo entre pesquisadores, empresas e órgãos ambientais.
Para o futuro, o pesquisador vislumbra uma atividade cada vez mais apoiada por tecnologias como sensores, automação, geotecnologias, sistemas de controle e análise de dados. Essas ferramentas podem ajudar a acompanhar a qualidade da salmoura, controlar níveis de água, melhorar a eficiência da colheita e monitorar parâmetros ambientais. Mas, na visão de Rogério Taygra, o avanço tecnológico precisa estar associado à sustentabilidade.
Para a Ufersa, esse cenário representa também uma oportunidade de fortalecer a pesquisa aplicada e o diálogo com uma das principais atividades econômicas do estado. A concentração da produção salineira no Rio Grande do Norte, segundo o pesquisador, aumenta a responsabilidade das universidades e instituições locais na construção de soluções. “Nós precisamos assumir o protagonismo na produção desse conhecimento”.
A proposta é fazer da ciência produzida na região uma ferramenta para responder aos desafios da própria região. Ao aproximar universidade, setor produtivo e meio ambiente, a pesquisa pode contribuir para que a produção salineira avance não apenas em produtividade e tecnologia, mas também em responsabilidade ambiental e capacidade de inovação.
Para Rogério, esse conhecimento aplicado é fundamental para garantir que a indústria salineira permaneça forte e competitiva ao longo das próximas décadas, sem deixar de lado a conservação dos ambientes que fazem parte da própria realidade produtiva do Rio Grande do Norte.