Opinião: A indústria salineira e o futuro de Areia Branca

SALSal, uma das atividades mais rentáveis e fonte de empregos, no município

Por Marcelo Mendonça, de Brasília 

As constantes oscilações, entre crise e prosperidade, da indústria salineira do Rio Grande do Norte são uma séria ameaça à economia de Areia Branca. A situação, na verdade, é de alto risco.

SAL III A cidade sempre teve seu desenvolvimento ligado à cadeia de produção do sal. Tanto as primeiras barcaças de madeira e propulsionadas a vela como os modernos navios de agora, com avançadas tecnologias, vieram para cá não por outro motivo senão para atender a uma necessidade do comercio salineiro. Pela mesma razão é que foi construído o Porto Ilha e que ainda existe aqui uma filial da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (CODERN). Somente a Norte Salineira Indústria e Comércio (NORSAL) emprega quase 1000 pessoas, para não citar números doutras empresas do mesmo setor e também daquelas da área de transporte marítimo. Todas elas, conjuntamente, entre empregos diretos e indiretos, sem nenhum exagero, aumentam aquele número de 1000 em quase dez vezes. Como conseqüência, diversas profissões e atividades locais, ligadas ao comércio e aos serviços, estão relacionadas ao sistema produtivo do sal. Areia Branca não seria como é, e nem pode ser, se não fosse, e se não é, o sal que brota de suas terras e que resulta da evaporação de suas águas.

SAL III Assim, os diversos fatores que afetam séria e diretamente a Indústria Salineira do Estado podem provocar um estrago na economia areia-branquense, dependendo da intensidade com que venham a apresentar-se. E quatro deles merecem destaque.

O primeiro está relacionado aos períodos de vazão contínua da Barragem de Santa Cruz no município de Apodi, que provoca a queda da salinidade do estuário do rio Mossoró, levando a necessidade de captação de uma maior quantidade água para produção de sal, com maior tempo para evaporação e conseqüente aumento nos custos de produção. Se isso já é um problema, uma provável transposição do rio São Francisco para o Rio Apodi-Mossoró não apenas tornará a situação caótica, como acabará com a excelência da qualidade do nosso sal.

SAL III O segundo ponto a ser destacado é o baixo preço do produto. Para ter-se uma idéia, em 1994, quando o plano Real foi implantado, o valor de oferta do sal moído em unidades de 25 kg era de aproximadamente R$ 2,08 e o do litro da gasolina era menos de R$ 1,00. Nos últimos anos,  o preço do sal já esteve abaixo de R$ 2,00 e o litro da gasolina se aproxima dos R$ 3,00.

O terceiro item a ser lembrado é a entrada do sal chileno no Brasil. O produto chega isento de taxas e impostos, como conseqüência de acordos do MERCOSUL. Navios chilenos que vêm para nosso país buscar minério de ferro trazem o sal sem custo de frete, pagando somente pelo combustível. Dessa forma, apesar de vir de mais longe, chega com preço mais barato, provocando prejuízos à Indústria Salineira Potiguar. O mais sério é que a importação do sal chileno vem aumentando a cada ano. Em 2002, era de 53 mil toneladas e, em 2009, chegou a cerca de 700 mil, que é mais de 10% da produção nacional. Nesse mesmo ano, somente o porto de Paranaguá/PR, que havia importado do Chile 116 mil toneladas em 2008, importou aproximadamente 170 mil, um aumento de mais ou menos 46%.

SAL III O derradeiro fator é a famoso petróleo da camada pré-sal. Toda a expectativa gerada em torno da notícia dessa descoberta já começou a chamar atenção para investimentos, o que, inevitavelmente, fará com que a modernização dos portos e da logística do transporte do sal potiguar não tenha prioridade.

Mas, enfim, ante esse complexo quadro que ameaça a estabilidade econômica de Areia Branca, o que se pode apontar como alternativa? A utilização do Porto Ilha para exportação de outros minérios e de outros produtos, como frutas?O desenvolvimento de outro tipo de indústria, como a do beneficiamento do caju? O investimento na estruturação do turismo? A modernização do setor pesqueiro? A verdade é que nada disso, isoladamente, constitui-se como uma boa opção. Há a necessidade de um projeto de desenvolvimento que englobe vários setores e diminua essa excessiva dependência da Indústria Salineira. Nosso futuro está à mercê disso.

SAL III E como seria, então, um projeto como esse? Muito bem… Muito bem eu diria que esse é um tema para uma outra discussão e, também, para os cidadãos de altas posições hierárquicas do município… para as nossas autoridades, especialmente aquelas ligadas à área salineira e de transporte marítimo. Afinal, sou apenas mais um areia-branquense comum, e mortal, no meio de todos os outros.

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