Opinião: De volta ao Portal da Rua do Meio

CINE CEL FAUSTO “…Vi o Cine Miramar, o Cine Coronel Fausto e o sobradinho dos Dantas”

Em casa, na solidão de uma pré-madrugada de lua cheia, ouvi ao longe o apito de um guarda e, pelo vidro, mais uma vez admirei um ninho de pardal à minha frente, em um caibro da garagem. Fechei os olhos e retornei àquele trecho da Rua do Meio, que se iniciava com a casa de Caboclo Lúcio, à direita, e a casa de Manoel Bento, do lado oposto. O Portal da Rua do Meio. Usei a senha, já conhecida, e, mais uma vez, deslumbrei-me com a visão dos tempos de então. Vi o Cine Miramar, o Cine Coronel Fausto e o sobradinho dos Dantas, e tudo mais que aquela visão me pôde conceder.

Pela manhã, uma visão inusitada na capital federal: no oitão da minha casa, esgueirando-se cautelosamente, dois saguis – um casal – pararam na esquina da casa e olharam para um lado e para o outro, o maior na frente, correndo os riscos naturais da empreitada, e atravessaram a calma e estreita rua de domingo, fugindo alegremente para o quintal da casa da frente, em uma travessura que imaginavam secreta. E fiquei pensando.

Fiquei pensando nas palavras do Dr. Marcelo Mendonça, médico natural de Areia Branca com atuação em Brasília, publicada neste blog no domingo passado, em contestação ao meu texto, ao afirmar que aquele é o portal da desigualdade social, palco de inumeráveis cenas de nosso mundo desigual, e que era por ali que os adolescentes das altas classes sociais areia-branquenses, logo após a missa católica, e num verdadeiro desfile pelas calçadas da Praça da Conceição, exibiam a última moda vinda da capital, fato intrigante à época, ante o cotidiano de uma diminuta e pobre cidade do litoral norte-rio-grandense.

Penso de forma diferente. Digo isso com a autoridade da minha história de vida, pois, em Areia Branca, estudei no Círculo Operário e no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra; em Natal, estudei no Colégio Padre Miguelinho, no Colégio Sagrada Família e no Atheneu. Fiz o Curso Pré-Médico na própria Faculdade de Medicina e aí concluí meu curso superior, e fiz Residência Médica na Fundação Hospitalar do Distrito Federal. Escola pública do início ao fim de minha jornada de estudante. Por quê? Porque não podia pagar escola particular.

“Tudo depende do olhar. A gente tanto pode olhar sem ver nada quanto se maravilhar, uma capacidade natural na criança, e que o adulto precisa construir”, afirma Betty Milan, psicanalista e escritora.

A senha para o Portal da Rua do meio, repito, é a capacidade de contemplação infantil.

Aproveitemos a senha, pois.

* Evaldo Alves de Oliveira, areia-branquense residente em Brasília (DF). Médico e escritor

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