Homenagem às mulheres deste país que fazem história e as que deixaram um legado de grande dignidade e responsabilidade

Regina Lacerda*

Alzira1(1) OKEm 1857, Nova York se depara com uma greve de tecelãs por melhores condições de trabalho. 118 anos depois, em 1975, a ONU oficializaria aquele dia 08 de março como o Dia Internacional da Mulher. Hoje o comemoramos muito mais recebendo flores e bombons do que propriamente nos lembrando do seu verdadeiro significado. Parece que nos esquecemos das lutas! Na verdade, quando me lembro que naquele dia 8 de março cento e trinta mulheres foram queimadas vivas dentro de uma fábrica, fico me perguntando sobre o que, de fato, estamos fazendo que nos torna melhores ou mais dignas dessa homenagem do que elas. Quanta atrocidade!

Alzira Soriano, primeira prefeita da América Latina, em 1928

Há propostas na Câmara Federal para obrigar o Sistema Único de Saúde a imunizar mulheres entre 9 e 26 anos com a vacina contra o HPV, o vírus que atualmente mais mata mulheres precocemente. Outro projeto prevê mecanismos de punição e fiscalização da desigualdade salarial entre homens e mulheres. Outro, tenta estabelecer prioridade na realização de exames periciais quando a agressão tiver uma mulher como vítima. E outro propõe a inclusão da pesquisa de biomarcadores entre as ações destinadas à detecção precoce das neoplasias malignas de mama. Ainda hoje, em pleno século XXI, temos mulheres ocupando os mesmos cargos dos homens mas ganhando menos e precisamos de um projeto de lei para resolver a questão; temos um altíssimo índice de violência doméstica. Maridos e companheiros espancam suas mulheres, estupram suas filhas ou enteadas dentro de suas próprias casas. Precisamos da Lei Maria da Penha e de muita campanha educativa e encorajadora para que as mulheres denunciem seus homens. Por outro lado, recentemente ouvi de uma moça uma proposta para estarmos juntas, intimamente. Argumentou comigo um único ponto: só mulheres são capazes de entender mulheres. Homens não sabem do que gostamos, de nossas sensibilidades, de nossos desejos, de nosso corpo.

Como prefeita, empresária, filha e mãe quero render minha homenagem às mulheres de nosso país que fizeram a história e nos deixaram um legado de grande dignidade e responsabilidade. Porque, além das mulheres de Nova York, que morreram carbonizadas dentro daquela fábrica, no Brasil, dezenas de mulheres também foram mártires. Temos que ser gratas a Alice Tibiriçá, uma mineira de Ouro Preto, que sugeriu ao presidente Getúlio Vargas, em 1932 a criação do Dias das Mães e também trouxe as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher ao Brasil, em 1947. À pioneira na luta pelos direitos humanos no país, a índia Madalena Caramu, que em 1561 escreveu uma carta ao bispo de Salvador pedindo o fim dos maus-tratos contra crianças escravas. Aprendeu a ler e a escrever e tornou-se a primeira mulher alfabetizada no Brasil. No quadro complementar de oficiais do Exército Brasileiro consta Maria Quitéria, uma baiana que se alistou no Regimento de Artilharia para lutar na Guerra da Independência. Ana Neri, viúva, primeira enfermeira brasileira, que figura desde 2009 no Livro dos Heróis da Pátria por ter sido voluntária na Guerra do Paraguai após inconformar-se com a convocação dos três filhos e do irmão para aquela guerra. Lutou e conseguiu o direito de acompanhá-los, montando uma enfermaria modelo para atendimento aos soldados. Anita Garibaldi, conhecida como Heroína dos Dois Mundos, que casou-se com 14 anos, pediu o desquite três anos depois e casou-se com Giuseppe Garibaldi, italiano por quem se apaixonou e com quem lutou na Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Considerada exemplo de coragem e dedicação tanto no Brasil quanto na Itália, tem duas cidades em Santa Catarina em sua homenagem. Nísia Floresta, educadora, escritora, poetisa, provavelmente a primeira mulher a publicar textos em jornais, num tempo em que mal existia imprensa no Brasil. Publicou o livro “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”, provavelmente o primeiro livro do movimento feminista na América Latina. Seguida pela poetisa Narcisa Amália, primeira jornalista mulher do país e assim, por centenas de outras mulheres que usaram essa profissão para compartilhar idéias democráticas e progressistas. Chiquinha Gonzaga, a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, primeira compositora popular, mulher com imensa vontade de tirar o piano das rodas sofisticadas e levá-lo ao povo. É dela também a primeira marcha de carnaval, composta em 1899: Ó Abre Alas. Dorina Nowill, primeira aluna cega a freqüentar uma escola no Brasil e a enfrentar todas as dificuldades de lidar com espaços não adaptados e profissionais não habilitados a lidar com deficientes. E Nise da Silveira, alagoana, uma das primeiras médicas do Brasil, única em uma turma de 158 alunos.0 CELINA        Celina Guimarães, primeira mulher da América Latina a alistar-se como eleitora, no RN

Porém, no quadro político do Brasil temos hoje muito a comemorar com a eleição da primeira mulher Presidenta , como deseja ser chamada Dilma Rousseff, nas eleições de 2010. Sua responsabilidade torna-se maior ainda, não só pelos grandes desafios que tem a enfrentar num Brasil moderno mas cheio de desigualdades sociais, como também por ter sido precedida por ninguém menos que a Princesa Isabel,  única mulher antes a governar o País. Isabel assinou a Lei Áurea com uma pena de ouro, feita apenas para a ocasião e recebeu do papa Leão XIII a Rosa de Ouro, que simboliza o reconhecimento do pontífice por um feito notável. Declarou a célebre frase: “Mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos”.

Nossa luta pela participação feminina na política inicia-se no século XIX quando Celina Guimarães Viana, aparece como a primeira mulher da América Latina a alistar-se como eleitora, no Rio Grande do Norte, dando seu voto em 5 de abril de 1928 na cidade de Mossoró. Proporcionou a seu Estado, ser o primeiro a estabelecer no seu serviço eleitoral, que não haveria mais distinção de sexo para o exercício do voto. Alzira Soriano, primeira prefeita da América Latina, também em 1928, com sessenta por cento dos votos, oriunda da cidade de Jardim de Angicos no Rio Grande do Norte. Posteriormente elegeu-se também Vereadora por sua cidade natal. Carlota Pereira de Queiróz, eleita deputada federal por SP em 1934, primeira voz feminina na história do Brasil a ser ouvida no Congresso Nacional. Bertha Lutz, considerada uma das maiores líderes na luta pelo direito ao voto feminino, fundou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino elegendo-se deputada federal suplente, assumindo o mandato em 1936. Na Câmara, lutou por melhorias na legislação trabalhista em relação ao trabalho feminino e infantil como redução da jornada, licença-maternidade de três meses e igualdade salarial. Pagu, a primeira presa política do país, conhecida pelo incentivo ao teatro, principalmente a grupos amadores em Santos, onde viveu os últimos anos de sua vida. Esther de Figueiredo Ferraz, a primeira mulher a ocupar um cargo de Ministra da Educação, da qual eu tive o privilégio de ser datilógrafa, em 1985, iniciando minha vida profissional. Eunice Michellis, uma amazonense que em 1974 foi eleita deputada federal, consegue em 1979 ser eleita a primeira Senadora do Brasil. Mas a história não poderia deixar de registrar Olga Benário, deportada do Brasil para a Alemanha, que recebeu a confissão pública de Celso de Mello, então presidente do STF em 1998: “Cometemos erros e um deles foi permitir a entrega de uma pessoa a um regime totalitário como o nazista, uma mulher grávida”.0             Dilma, a primeira mulher a governar o país

Pergunto-me, estarrecida, qual são nossos ideais, nossas bandeiras, nossos desafios. O que o feminismo nos trouxe e o que, de fato, ainda temos que conquistar. Quais as reais vitórias dessas lutas, o que nos restou para realizar.

Hoje somos uma parcela significativa no mercado de trabalho, embora ainda precisemos de leis para que venhamos a receber salários iguais aos dos homens que ocupam a mesma  função. Nos casamos mais tarde, temos menos  filhos e os temos em idade bem mais avançada, priorizando nossa carreira profissional. Vivemos a era da informática, do facebook, twitter, MSN, dos relacionamentos virtuais, da solidão. Estudamos mais, nos preparamos mais, temos até o reconhecimento masculino. Estamos em praticamente todas as áreas profissionais. Mas nossas lutas são imensas. Perdemos valores morais em nome da liberdade sexual. Nossas filhas se tornaram amantes de outras mulheres, trouxemos essa discussão até para o Congresso Nacional. Nossos filhos se tornaram amantes de outros homens, todos com o direito de casarem-se, receberem pensão dos companheiros e adotarem crianças. Os valores cristãos que recebemos de nossos pais não conseguimos passar adiante. Não podemos mais corrigir nossos filhos com palmadas, sob o risco de sermos punidos pelo Estado. Na escola, as professoras também não podem se quer chamar-lhes a atenção. Enfrentamos dificuldade para professarmos nossas convicções, qualquer coisa hoje é discriminação. Falta-nos coragem para nos posicionarmos em relação ao aborto, a distribuição de material pornográfico em nossas escolas, para nossas crianças, à pedofilia. Serão essas lutas menores do que as que passaram nossas antecessoras? Serão maiores? Se uma ou se outra, seguramente, temos lutas do século XXI, eminentes, urgentes, que com coragem e dignidade temos que enfrentar. E colocar nossos nomes também na história. Uma história de resgate.LUANA BRUNO PRIMEIRA PREFEITA         Luana Bruno, primeira prefeita eleita de Areia Branca (RN)

Que a inspiração daquelas bravas mulheres que nos antecederam nos sirvam de força. Que mulheres como D. Eunice possam nos inspirar a que sejamos mulheres de uma geração que não percamos o propósito, o equilíbrio, a garra, a determinação mas também a humanidade, a delicadeza, a fragilidade com que nos tornamos grandes. Que possamos escrever uma melhor história, neste novo século!

Feliz Dia Internacional das Mulheres para todas nós!

0 REGINA

 

 

Regina Lacerda, é prefeita Regional de Brasília (DF), Setor Comercial Norte

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