Fala, Memória: Tirol e botequim, duas estruturas emblemáticas

TIROL EVALDO Entre os mastros das barcaças, Antônio do Vale (saudoso fotógrafo) captou o Tirol. Ao fundo, a torre da Igreja

Na minha infância havia duas estruturas – dois equipamentos comunitários – que ficavam na beira do rio, e se destacavam pelos opostos. Um era bucólico, sereno, quase terno. O outro, pequeno, fétido, mas acalentador e reconfortante nas horas extremas, em que o instinto humano faz fronteira com o animalesco.

O primeiro ficava próximo à Praça José Batista, na parte mais sofisticada da Rua da Frente, onde ficava o escritório da firma Wilson Sons Ltda. O segundo era uma pequena construção, com apenas uma porta, a meio caminho entre a rampa e a usina de luz, servindo de contraponto para uma velha e feia embarcação naufragada. Era o encontro do horroroso com o lúgubre.

O Tirol, localizado à beira do rio, funcionava como terminal de passageiros para os barcos que provinham especialmente de Porto Franco e Grossos, parece até não ter existido. Não sei quando foi construído nem, tampouco, quando e como foi destruído. Não fossem as lentes e a percepção histórica e turística de Toinho do Vale, seria difícil acreditar que um dia o Tirol tivesse, de fato, existido. Local de encontros e despedidas durante o dia, à noite tornava-se o paraíso dos namorados e das famílias que, de passagem pelo cais, à beira do rio, curtindo o frescor da noite, tinham no Tirol um local de privilegiada visão do outro lado do rio, com destaque para a Barra, Pernambuquinho e os respingos de luz que escapavam de Tibau, depois do ponto em que o rio se encontra com o mar. Grupos de amigos, pescadores de fim de semana, faziam do Tirol um refúgio para as conversas e o desperdício de suas minhocas.

A outra estrutura é mais emblemática ainda. O Botequim da Bosta, cuja memória continua entranhada em nossas mentes – até hoje não vi uma só foto que confirme a sua existência – era utilizado pelos trabalhadores do cais, pelos calafates e pelos tripulantes dos barcos que ancoravam no porto, ou por aqueles que realizavam algum serviço de reparo em suas embarcações, além de uma miríade de pessoas que circulavam pela Rua da Frente, o álcool como elemento de atração. Império do fedor e da sujeira, pouco se fala sobre esse equipamento comunitário, que funcionou durante muitos anos, e que era uma preocupação para as mães, com temor de que seus filhos ao menos se aproximassem daquele local. “Tomar banho pros lados da rampa pode; pros lados do Botequim, não!”.

Duas estruturas que fazem parte da história da nossa cidade, com clientelas radicalmente distintas, ambas olhando para o mesmo manguezal, banhadas pelas mesmas marés, que insistiam em lhes cumprimentar diuturnamente, ambas sem sinais evidentes de sua existência, exceto para as lentes das velhas máquinas de Antonio do Vale.

* Evaldo Alves de Oliveira, areia-branquense. Médico e escritor

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