Fala, Memória: O Céu existe!

DARIOProfessor Dario com atletas mirins que passaram pela sua escolinha 

Semanas atrás dei carona a Dario, figura muito conhecida em nossa cidade, seja pelos seus impagáveis e relevantes serviços prestados há pelos menos mais de uma década na colaboração à educação de muitas famílias areia-branquenses, através das aulas de reforço que oferece em sua casa; seja pelo igualmente incomensurável e grandioso trabalho ­­– diga-se de passagem, voluntário – que realiza com dezenas de crianças da nossa Salinésia através de uma escolinha de futsal, este, há exatos 20 anos.

Esse inusitado encontro logo fez ressurgir em mim aquela esperança, aquela crença em dias melhores, sentimentos que normalmente vem à tona apenas em momentos muitos especiais, quando como, por exemplo, tenho a oportunidade de me deparar com gente como Dario: o Céu existe! Pode até parecer meio exagerada tal afirmação, porém tentarei me explicar e, ao mesmo tempo, justificar tal assertiva; se é que elucubrações tão pessoais como essa podem ou devem ser explicadas ou até mesmo justificadas. Mesmo assim, como reza o adágio popular, “vamos pra frente que atrás vem gente”.

DARIO 2 Por suas definições, “região para onde, segundo as crenças religiosas, vão as almas dos justos” ou “qualquer lugar onde se possa ser feliz; paraíso” (cf. versão eletrônica do Dicionário Aurélio), a palavra Céu tem uma conotação toda especial e que talvez por essa razão, quase sempre se apresenta como algo muito distante do nosso cotidiano, praticamente impossível de alcançar. Entretanto, parte desse último conceito serve para me assistir na difícil, mas também recompensante tarefa de tentar, como dito antes, esclarecer a afirmação que fiz. Embora uma maioria esmagadora acredite e viva condicionada ao entendimento de que ser feliz é muito difícil porque depende de muitas coisas; há uma minoria que diariamente mostra o contrário, isto é, que ser feliz não é tão complicado quanto parece ou quanto algumas pessoas tentam diuturnamente mostrar que é. Assim, se o Céu pode ser entendido como sendo um espaço no qual se pode estar contente, satisfeito, alegre; ele existe sim! E o melhor, está ao alcance de todos nós. Dario certamente é uma dessas pessoas que nos ajudam a lembrar e, principalmente, experimentar, viver isso.

Pessoas como Dario são raríssimas. Ele é uma verdadeira unanimidade em matéria de simpatia, alegria, acolhida e, sobretudo, paciência; sentimentos que, desafortunadamente, estão cada vez mais escassos nos dias de hoje, o que talvez possa ajudar a explicar a infelicidade e a incapacidade de sorrir de alguns de nós.

Que outra pessoa, senão Dario, para reunir uma ou duas vezes por semana (não sei bem ao certo) dezenas de crianças para jogar bola? E por que não dizer, para por à prova sua inabalável paciência? Que outro ser humano, senão Dario, para abrir mão de estar no aconchego do lar, com sua família para proporcionar a essa meninada o mágico e indescritível encontro com a bola e seus encantos? Que outra criatura, senão Dario, para proporcionar a dezenas de pais e mães preciosíssimas horas de sossego e tranquilidade, quando dos “sagrados”, “abençoados” e tão esperados dia e hora da “Escolinha de Dario”? Que outro filho de Deus, senão Dario, para nos encher de orgulho por sermos desta terra, seus conterrâneos? Que outro cara, senão Dario, para se doar de uma forma tão bonita e plena ao trabalho voluntário, abraçando como filhos seus inúmeras crianças sedentas por alegria, que querem tão somente jogar bola?

DARIO 2 E por falar em filhos, lembrei-me dos de Dario e Edinha ­­– falo dos de sangue ­­–, Aríssia e Yuri, afinal de contas, Dario pode e deve ser considerado o paizão dessa meninada que tem o privilégio de conviver com ele. Parece-me que não seria exagero também dizer que, em certa medida, Edinha exerce o papel de mãe das crianças as quais ensina, já que tal atribuição, segundo preconiza a LDB 9394/96, é um dever primeiro da família e depois da sociedade.

Ainda sobre a família de Dario e sobre privilégio, ocorreu-me agora a lembrança de que Deus me concedeu há pouco mais de uma década a alegria de dar aulas de Catecismo (Amiguinhos de Jesus) a Aríssia. À época, uma criança maravilhosa, seguramente, considerada uma “filha dos sonhos”, por seu jeito respeitador, carinhoso e gentil, que fazia e que ainda deve fazer jus à expressão “Eu queria ter uma filha assim”. Ô Dario “invocado”, além de cuidar e educar tantos filhos alheios, ainda arranja tempo para se preocupar e tão bem orientar os seus. Qual será o seu segredo? Como ele consegue? E pensar que há vários pais e mães que apesar de terem apenas um ou dois rebentos e de terem mais tempo disponível, não conseguem tal façanha. Penso que, por fazer de modo irrepreensível o bem a tantas pessoas, – independentemente de condição social ou opção religiosa – Deus acaba lhe recompensando abundantemente em tudo, inclusive e, sobretudo, na educação de seus filhos.

Conforme mencionei no início do texto, o belíssimo trabalho que Dario desenvolve é totalmente voluntário. Tal fato me instigou a pesquisar sobre esse tipo de trabalho, dada sua relevância e seu alcance. De acordo com uma versão eletrônica do Dicionário Aurélio, voluntário significa, dentre outras coisas, “[pessoa] que age espontaneamente” ou ainda “derivado da vontade própria; em que não há coação; espontâneo”. Já para as Nações Unidas o voluntário é o indivíduo que, por vontade própria e por seu espírito cívico, destina parte do seu tempo, sem remuneração alguma, aatividades diversificadas, planejadas ou não, visando o bem estar de uma dada comunidade. A Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança definiu o voluntário como um “ator social e agente de transformação”, que realiza tarefas não remuneradas em benefício de outros; disponibilizando seu tempo e conhecimento ele – o voluntário – leva a cabo um trabalho gestado pela força da solidariedade; esse trabalho atende por um lado às necessidades de seus semelhantes e por outro às demandas de uma causa, “como às suas próprias motivações pessoais, sejam estas de caráter religioso, cultural, filosófico, político, emocional”.

DARIO 2 O trabalho realizado por Dario vai diretamente ao encontro dos conceitos acima apresentados e ratificam-nos brilhantemente.As aulas da “Escolhinha de Dario” significam muito. Significam oportunidade de lazer e diversão, saúde, resgate da cidadania, respeito ao “ser criança”, distanciamento das drogas, respeito e aceitação do diferente, boa convivência, notas boas no colégio, disciplina, obediência e tantas outras coisas positivas que agora não me veem a memória. Entretanto, estou certo de que jamais sairão da minha memória, aquelas palavras proferidas por uma das mães ao deixar seu filho para o treino: “Como era bom se tivesse outros Darios”.

!ENHORABUENA – parabéns na Língua de Cervantes – Dario! por esses 20 anos de amor e dedicação, por essas duas décadas “fazendo o bem sem olhar a quem”. Muito obrigado em meu nome e em nome daqueles e daquelas que certamente lhe serão gratos pelo resto de suas vidas; obrigado por nos mostrar de uma forma tão especial que, embora muitos não acreditem ou prefiram não acreditar ou ainda,teimem em tentar esconder, O CÉU EXISTE!

Que Deus continue te dando em dobro e te recompensando grandemente por tudo o que você tem feito pelas nossas crianças, e não somente por elas, mas também por acréscimo às suas famílias, e que nas próximas duas décadas esses “dariozeiros” – para usar uma palavra da moda – possam lembrar-se de você e das mensagens e ensinamentos a eles transmitidos e que, sobretudo, reconheçam o teu maravilhoso trabalho e te sejam gratos por isso.

José Fabiano Pereira da Silva, areia-branquense, professor de Língua Espanhola do IFRN/Campus Ipanguaçu-RN.

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