Fala, Memória: Eleições e a política de um lado só

manoel-avelino_close Sempre que me deparo com eleições, me vem à mente as de Areia Branca, pós 1964, quando o golpe militar permitia votar somente nos cargos para vereador, deputado estadual e deputado federal. Nesta época, eu era apenas uma criança.

Manoel Avelino foi o nome de maior expressão no cenário político de Areia Branca

No ano de 1968, o bipartidarismo foi adotado no país. Já se podia votar para senador e prefeito, exceto nas capitais. No âmbito estadual o período eleitoral era polarizado por dois líderes políticos. De um lado, Dinarte Mariz, da Arena (Aliança Renovadora Nacional, partidos do governo), e seus correligionários, e no lado oposto, Aluízio Alves, do MDB (Movimento Democrático Brasileiro, partido das oposições) e os seus seguidores. A cor das bandeiras e roupas usadas pelos dinartistas era a vermelha, que muitos diziam ser “encarnada”. A cor verde era dos aluizistas.

Em Areia Branca, o político de maior projeção, Manoel Avelino (ex-deputado estadual), acompanhava Dinarte Mariz, e do outro lado, Dr. Chico Costa (ex-prefeito), liderava os partidários de Aluízio Alves, denominados bacuraus.

As campanhas políticas eram bastante acirradas e os ânimos eram deveras exaltados, tanto na capital quanto nos interiores. Creio eu que nos interiores eram muito mais. Em Areia Branca todos se conheciam e dificilmente alguém não tomava partido. Faço minhas conjecturas e imagino como era alguém querer ficar “em cima do muro”. Era difícil permanecer nele.

Nessa época papai “teimava” em ir da capital, onde residia, para sua cidade natal, fazendo questão de votar em seus conterrâneos, tamanho era o seu amor para prestigiá-los, assim como rever familiares e amigos. Esse privilégio não era somente dele. Muitos dos seus conterrâneos tinham o mesmo pensamento e ação.

Nessa época, salvo engano, os políticos não dispunham de ônibus, variados transportes, para levar “gratuitamente” seus eleitores. Papai era terminantemente contra compra de votos e abominava qualquer agrado de políticos. Em toda a sua vida jamais aceitou algum favorecimento de político, principalmente em período eleitoral. Fazia questão de pagar sua passagem com recursos próprios, e viajar no ônibus intermunicipal como qualquer passageiro.

Como era prevenido, de antemão comprava com bastante antecedência as passagens de ida e volta. Ao embarcar no ônibus, um dia antes das eleições, o momento se transformava em uma verdadeira festa no reencontro com os amigos da terra. A rodoviária superlotada, um verdadeiro carnaval de gente e desfiles de vários eleitores saindo de tempos em tempos para seus destinos. Uns vestindo suas cores de preferências partidárias. Papai não! Ele sempre ficava neutro.

Alguns amigos o abordavam acerca do seu voto, porém ele não declinava. Ouvia argumentos de ambas as partes, sem tomar partido. Ele sempre foi um bom ouvinte.

Quando chegava em Areia Branca era bastante questionado quanto aos seus votos, principalmente os votos para prefeito e vereador. Os familiares tentavam de todas as formas saber, porém as tentativas eram infrutíferas. Ele tergiversava. Era bom nisso. Não queria arranjar encrencas nem inimizades.

Ao chegar de volta da viagem, vinha um pouco chateado. Ele só nos relatava que na próxima eleição votaria na capital para não perder a amizade dos seus conterrâneos e amigos do tempo de infância. Dizia que Chico de Boquinha apoiava certos candidatos, já Ribamar Siqueira apoiava outros de outras cores partidárias. Havia encontrado Chico Borges que já apoiava outros, e todos os seus amigos contavam com o seu voto. Mas como votar e declarar seu voto sem fazer inimizades?

Em Areia Branca ou você apoiava um partido ou outro. Não havia terceira via, assim como em todo o país. A impressão que ele tinha era que a paixão política-partidária exacerbada tomara conta dos seus amigos. Infelizmente, alguns se transformavam em adversários mútuos, quase inimigos entre si, devido à discordância e apoios a certos candidatos locais. Verdadeira guerra eleitoral. Papai não queria tomar partido algum, e muito menos perder amigos.
Em casa, ele só falava nesses conflitos, e como livrar-se deles. Não queria falar, tampouco ouvir ou discutir a respeito de política partidária em casa.

Mais uma eleição se aproxima e recordo-me das eleições em Areia Branca, quando menino.

Até hoje não sei em quem papai votou. Se alguém souber alguma coisa, favor me avisar.

Othon Souza, filho do prático Zé Antonio e de ”Belezinha”. Nascido em Natal, teve sua gênese em Areia Branca a partir dos últimos anos da década de 60, quando para cá se dirigia nas férias escolares. Graduou-se Engenheiro Agrônomo e pós-graduou-se mestre em agronomia, pela antiga ESAM, em 1996. Atualmente reside em Rio Branco capital do Acre.

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