Escritor areia-branquense fala sobre criação poética, aspirações literárias e detalhes do seu último livro, “Dissonante”

122  OK   OKLeonam Cunha faz parte de uma geração de escritores e poetas potiguares que parecer ter vindo para ficar. Areia-branquense por nascimento, o graduando em Direito já chama a atenção na cena literária potiguar com seus dois livros, “Gênese” e “Dissonante”, este último responsável por inúmeras e positivas críticas de escritores e jornalistas potiguares.

Na entrevista para o Universo, Leonam fala sobre sua criação poética, a rebeldia e as aspirações literárias. O jovem escritor também comenta detalhes de seu último trabalho e a expectativa de novas publicações em um futuro próximo. Confira.

Por Cláudio Palheta Jr.
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O Mossoroense: Quais foram seus primeiros contatos com a literatura? Começou a escrever com quantos anos?

Leonam Cunha: Meus primeiros contatos hão de ter sido por meio daqueles livretos com parábolas bíblicas. Isso eu imagino dada a religiosidade dos meus pais. Em minha casa também sempre houve diversos livros; nunca muito oferecidos a mim, para degustação, tenho de acrescentar. Depois veio a escola. Na escola lembro muito bem de ter lido Ziraldo, Júlio Emílio Braz, Ruth Rocha, Pedro Bandeira, etc. Não sei dizer com quantos anos comecei a escrever, na verdade me recordo que “danei” a escrever um conto ficcional, junto com um amigo, lá pelos 10, 11 anos, que hoje está perdido. Pelos 12, aprendi violão e escrevia para compor. Alinhavei muitas linhas tortas que ficaram na fumaça do tempo…

OM: Dissonante é seu segundo livro. Quais são as principais diferenças e semelhanças para “Gênese’”, que foi o primeiro?

LC: Meu “Dissonante” trilhou outros rumos, como é natural que seja. Deixou um pouco o caos do “Gênese” e organizou-se em temas; observou mais a estética e abandonou as formas verbais exaustivas que preservei, fielmente, do começo ao fim do “Gênese”. Meu primeiro livro é confuso. Já “Dissonante” prestigia a confusão e abre portas a ela. “Gênese” se alonga em versos compridos e bem explicados; “Dissonante” enxerga-se no conciso, no verso que deixa um vácuo para quem quiser adentrar. É preciso que se diga, ainda, da grande quebra de inocência entre os dois livros. A semelhança é que quem escreveu foi a mesma pessoa. Por mais que o tempo nos açoite, algo fica preservado. Os conflitos que os livros apresentam são, por alto, os mesmos; a indignação de alguns versos também é a mesma.

OM: A poetisa e escritora Angélica Torres Lima destaca a rebeldia de sua poesia. Que poetas influenciam você, e dão tom a essa rebeldia? Por quê?

LC: Não sei se sou a melhor pessoa para falar de minha rebeldia (risos). Mas encaro. Penso que essa característica é muito mais moldada pelo cotidiano, isto é, pela vida em si, que pelos livros. Todavia, claro, muitos escritores dão um tom a mais nisso. Falando em poesia, é essencial que eu cite a contribuição de Rimbaud, García Lorca e Drummond neste processo. Porém, vejo que escritores como Kafka e Dostoiévski conseguem me temperar mais consistentemente nesse aspecto.

OM: Recentemente seu trabalho foi incluído como um dos mais importantes do RN no livro “Alguns Livros Potiguares”, de organização do pesquisador Chumbo Pinheiro. Qual foi a sensação de já ser lembrado, mesmo com uma carreira tão curta?

LC: A sensação é ótima, meu caro. Desde que li a resenha de Chumbo Pinheiro sobre meu “Gênese”, fiquei maravilhado com as palavras e lisonjeado por ter conquistado algumas pessoas que vivem imersas na literatura. Ademais, ser lembrado num livro de crítica literária potiguar é, além de tudo, um incentivo a meu amanhecer como “poeta”.

OM: Seu novo livro, Dissonante, tem belíssimas e perturbadoras gravuras. Os traços são da desenhista Milla Serejo. Em “Gênese” você também contribuiu com ilustrações no livro. Como foi o processo de escolha da artista neste livro e o que achou do resultado final?

LC: Na verdade, a artista Milla Serejo é uma amiga já de muitos anos. Quando organizei, finalmente, o “Dissonante”, observei que meus versos se encaixavam, em alguns aspectos, ao traço dela. Confusos, quebrados, permissivos, de pernas abertas, sem grades. Lancei a proposta a Milla, que disse sim com um sorriso de muitos dentes! Achei o resultado fantástico! Cabíveis à proposta do meu livro, as ilustrações geraram um visual sobremaneira dissonante ao trabalho.

OM: Hoje existe um grande debate sobre a importância e o caráter político da literatura em detrimento aos seus limites estéticos. Como avalia isso e como sua poesia se insere em meio esse embate?

22 OK OKLC: Valorizo deveras o caráter político da arte como um todo. Este é, inclusive, ponto de relevo em meus versos. Entretanto, antes de tudo, deve-se aferir a estética própria da arte. O que não podemos pensar é em estética de forma enrijecida e rupestre, estética como “limitadora da arte”. A estética é o que faz reconhecermos a arte como tal, reconhecermos a beleza de que é dotada a arte. Prefiro refletir, por exemplo, sobre os “deslimites da estética” a refletir sobre os “limites” dela. Minha poesia procura se inserir neste liame: é estética e não se abstém de dizer o que deve ser dito, o que pulula e salta aos olhos. É estética, sim, mas toma partido; sem precisar, para isso, centralizar a posição política como partícula fundamental, única e legítima para direcionar a arte.

OM: Dissonante é dividido em 7 capítulos que mais lembram a reunião de sete pequenos livros com temáticas diferentes. A intenção, no ato da organização dos poemas, era realmente essa? Em resumo, que assuntos são abordados pelo livro?

LC: Perfeitamente essa. Os assuntos são diversos, mas resolvi executar uma organização que condensou os poemas de amor/sexo no livro “Amoremas”, os poemas sobre minha terra no livro “Branco Areal” (este, um duro projeto), os poemas metalinguísticos em “Extravagante”, os naturais – pelo aspecto físico-visual – em “A poesia observada da colina”, os poemas mais diretamente eróticos em “Epitalâmios profanados (endeusamento à esbórnia)”, os sociais e/ou políticos em “O livro das preocupações” e os poemas sem arestas no “Intempestivo”.

OM: Você é um areia-branquense que reside em Natal. Nessas duas cidades há uma cena poética e literária forte? Como é a participação dos jovens neste meio?

LC: Se há uma cena poética forte em Areia Branca? (risos) Presumo poder contar nos dedos “aqueles” que escrevem poesias e as mostram. Enquanto a cena poética brasileira vai mal das pernas, que direi da de Areia Branca?! Hoje ao menos posso mencionar que desponta um barulho de versos graças às articulações do amigo Luiz Luz. No mais, silêncio. Em Natal também não é lá muito interessante… Mas, quanto à participação “dos” jovens nisso, consigo, em geral, identificar um bom número de pessoas que gozam com a patifaria das palavras. Neste quesito, não temos como comparar Areia Branca a Natal, por exemplo. No entanto, em suma, a situação é a seguinte: os romancistas potiguares reúnem uma dúzia de interessados; os poetas potiguares, meia. Isso tudo porque não temos incentivo na área mediante políticas públicas definidas, etc…, e lá se somam infortúnios…

OM: Você tem planos para publicar um novo livro de poesias? E quanto à prosa, pretende se aventurar em breve?

LC: Parece-me cedo para já falar em planos de outra publicação. A verdade é que não os tenho. Acumulo, a cada dia, mais versos. Contudo, preciso organizar, elaborar um projeto do que quero fazer para o próximo rebento. Quanto à prosa, esta continua se me aparecendo como lugar muito turvo, para o qual não acredito ter visão boa o suficiente que me dê segurança para singrar por ele.

Entrevista publicada no caderno Universo do jornal O Mossoroense, edição de 30/11/2014

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