Por Carlos Júnior, Jornalista
Quem é de Areia Branca, ou visita a cidade no período que antecede o carnaval, sabe que os ursos e as bicharadas são os verdadeiros precursores da folia anual. Alguns grupos iniciam a batucada ainda nas últimas semanas de dezembro e estendem a brincadeira até o fim do carnaval, aquecendo as ruas com ritmo, irreverência e tradição.
Em 2026, porém, ainda não foi registrada a presença dos ursos e das bicharadas nas ruas da cidade. O fato chama atenção e acende um alerta para o possível esquecimento de uma das expressões mais autênticas da cultura carnavalesca de Areia Branca.
O carnavalesco e mestre cultural, Paulo César de Brito, fundador do Bloco Rei da Bicharada (BRB), demonstra preocupação com essa mudança de comportamento. Defensor da preservação das tradições populares, ele já havia levado às ruas a “Burrinha do BRB”, personagem icônico que marcou o carnaval de 2024 e que teve sua alegoria repaginada pelo carnavalesco e artesão Nill Ribeiro, valorizando ainda mais o visual e a identidade cultural do personagem mais famoso da troça e da brincadeira.
Atento ao atual cenário cultural, Paulo César elaborou neste ano um projeto para concorrer ao edital de apoio às agremiações carnavalescas e blocos tradicionais da Prefeitura de Areia Branca, por meio da Secretaria Executiva de Cultura.
O Bloco Rei da Bicharada (BRB), completou no último dia 5 de janeiro, 38 anos de fundação. “Não podemos deixar essa tradição centenária morrer. Em respeito a Luiz da Gama, eterno folião de bicharada, e em memória de Surica, Vicente Brito, Amaro Gonçalves, Tico de Chico Preto e tantos outros, queremos trazer o BRB para a avenida mais uma vez, transmitindo essa tradição para as gerações atuais e plantando a semente para as futuras gerações”, destaca Brito.
O projeto foi inscrito nesta sexta-feira, 16, e traz em seu conteúdo a preocupação formalizada com o apagamento da tradição das bicharadas, reforçando a importância do incentivo público para garantir que o BRB continue levando sua irreverência, alegria e identidade cultural às ruas da cidade, garantindo a presença dos ursos na folia de Areia Branca.
De acordo com o edital, em 2026 o desfile dos blocos e agremiações carnavalescas acontecerá na Quarta-feira de Cinzas, dia 18 de fevereiro. A data é considerada favorável, pois permite maior participação dos brincantes no chamado carnaval cultural, já que o carnaval festivo conta com grandes atrações e arrastões que atraem públicos numerosos para os eventos programados e divulgados pela equipe de eventos do município.

O Edital 001/2026 de 14 de janeiro de 2026, da Secretaria Municipal de Juventude, do Esporte da Cultura, das Minorias e Igualdade Racial e Prefeitura de Areia Branca, prevê incentivos financeiros para agremiações carnavalescas como Escolas de Samba, Bicharadas e Blocos, com recursos que variam entre R$ 15 mil e R$ 7 mil. Uma oportunidade importante e um investimento necessário na manutenção das tradições culturais carnavalescas.
Bicharada é tradição centenária no carnaval da cidade

Segundo registros do livro “Minha Areia Branca”, de Paulo César de Brito, são os ursos e bicharadas que anunciam, de forma barulhenta e popular, a chegada do carnaval na cidade. Embora não existam datas precisas sobre a origem dessa tradição no Rio Grande do Norte, pesquisas apontam que ela pode ter chegado ao Brasil por influência do povo cigano europeu, que percorriam cidades com animais presos por correntes, dançando de porta em porta ao som do comando “dança la ursa”, origem do nome dos blocos.
Burrinha do BRB nas ruas, no carnaval de 2024
No Nordeste, especialmente em Pernambuco, a tradição ganhou força no início do século XX com grupos como o famoso “La Ursa”, possivelmente responsáveis por inspirar os cortejos que mais tarde se consolidaram também em Areia Branca.
Na salinésia, a bicharada teria começado por volta da década de 1940 com a família Gama, liderada por Luiz da Gama, que confeccionava figuras como a burrinha, a cobra chinesa, o urubu e o pássaro Arapiraca. Além da bicharada, o grupo atuava em outras manifestações culturais como fandango, chegança, coco e folguedos populares.
Pesquisas da historiadora Solange Rosana Gregório, indicam que a bicharada de Areia Branca é centenária, tornando o município um verdadeiro celeiro cultural dessa brincadeira. Dela surgiram diversos blocos, como o Bloco Rei, a Bicharada dos Gamas, o BRM, o BRB, o BRU e outras formações que marcaram gerações.
Com o passar dos anos, muitos desses grupos foram extintos. Permaneceram resistindo principalmente os mais tradicionais, entre eles o Bloco Rei e o Bloco Rei da Bicharada, que carregam não apenas a festa, mas a memória viva do carnaval cultural da cidade.
Para Paulo César de Brito, preservar os ursos e as bicharadas é garantir que Areia Branca continue reconhecendo sua identidade popular. “A bicharada não é só brincadeira: é história, é educação cultural e é pertencimento. Já passou da hora de essa tradição ser reconhecida como patrimônio cultural imaterial do município”, defende o carnavalesco.
Fotos: Carlos Júnior