O momento de transição de um ano para outro é marcado por uma série de ritos e eventos de caráter particular e, muitas vezes, coletivo. Muitos desses atos são atravessados por tradições que assumem dimensões econômicas, sociais, culturais e religiosas, preservando símbolos e práticas que perpassam gerações. Em Areia Branca, no Rio Grande do Norte, esse simbolismo se expressa de forma singular por meio do Cortejo de Iemanjá, que integra o calendário cultural e religioso do município.
Como parte da programação que antecede o cortejo, a Casa de Cultura de Matriz Africana Ilé Asé Ìya Omí Sàbá realiza, na terça-feira, dia 30 de dezembro, às 18h, um xirê (culto) aberto ao público, em homenagem a Iemanjá. O momento religioso acontece com cânticos, rezas e celebrações próprias do candomblé, preparando espiritualmente os devotos e participantes para o ritual de entrega das oferendas.

O Cortejo de Iemanjá acontece na quarta-feira, dia 31 de dezembro, a partir das 16h, e é aberto ao público, permitindo a participação de toda a comunidade e visitantes. A caminhada religiosa tem início na casa de matriz africana localizada na Rua Duque de Caxias, nº 362, no Centro da cidade, seguindo pela Rua Barão do Rio Branco até o Cais Tertuliano Fernandes. No local, ocorre um ritual aberto ao público que antecede o embarque dos religiosos em balsas com destino à foz do rio Ivipanim (Apodi-Mossoró), onde são entregues as oferendas ao orixá.
Duas embarcações, disponibilizadas pela Prefeitura de Areia Branca, por meio da Secretaria Executiva de Cultura, contam com capacidade para até 80 pessoas cada. Por questões de segurança e em cumprimento às orientações da Marinha do Brasil, há limitação técnica de passageiros e controle no momento do embarque. Ainda assim, os visitantes terão a oportunidade de embarcar e vivenciar esse momento solene e peculiar, respeitando os critérios estabelecidos.

Assim como em anos anteriores, o presente que será entregue à natureza segue uma proposta ecológica e consciente. A cesta é confeccionada com material biodegradável, tendo como base o papel machê, e ornamentada com flores naturais. O babalorixá Noamã Pinheiro orienta os devotos a priorizarem homenagens sustentáveis, evitando materiais como vidro, espelhos ou plásticos. “A presença no cortejo, um pensamento e uma prece já são oferendas grandiosas. Devemos minimizar os impactos ao meio ambiente e contribuir para a preservação da natureza e, consequentemente, do próprio orixá, que se manifesta de diversas formas no mundo natural”, ressalta.
Caminhada histórica
Tradicional em grandes centros urbanos como Salvador e Rio de Janeiro, o culto a Iemanjá teve início em Areia Branca no dia 31 de dezembro de 2000, a partir da iniciativa do babalorixá Noamã Pinheiro, líder da Casa de Cultura de Matriz Africana Ilé Asé Ìya Omí Sàbá. A proposta foi levar o culto às ruas da cidade, culminando com o embarque dos religiosos em balsas para a entrega das oferendas na foz do rio Ivipanim.

“Trazer o cortejo para dentro da cidade foi uma revolução para a época. Fizemos isso consultando os orixás e recebendo o aval da matriarca da casa, Maria Pinheiro de Iemanjá (in memoriam)”, relembra o babalorixá. A primeira edição contou apenas com membros da casa religiosa, mas já despertou a atenção da população, que acompanhou a caminhada de forma respeitosa. Nos anos seguintes, o evento ganhou novas adesões, inclusive de outros centros de matrizes africanas, e passou a receber o reconhecimento do poder público como manifestação cultural e religiosa, ao reunir um grande número de pessoas, inclusive turistas que anualmente participam da festividade.
Para a antropóloga Eloysa Tolentino, a inserção do cortejo no espaço público é fundamental no enfrentamento ao preconceito religioso. “Trazer o cortejo para o centro da cidade ajuda a desmistificar o imaginário da sociedade sobre o candomblé. Iemanjá passa a receber seus presentes à luz do dia, diante de uma caminhada que se transforma em festa. A população, que antes estava acostumada a acompanhar procissões dedicadas a Nossa Senhora das Navegantes e Nossa Senhora da Conceição, agora presencia pessoas reunidas em torno da entrega de oferendas a um orixá”, destaca.

Reportagem e fotos: Carlos Júnior
Ilustração: Daniel Cavalcanti